terça-feira, setembro 9


No ponto onde o silêncio e a solidão
Se cruzam com a noite e com o frio,
Esperei como quem espera em vão,
Tão nítido e preciso era o vazio.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Se te pareço noturna e imperfeita

Olha-me de novo. Porque esta noite

Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.

E era como se a água

Desejasse



Escapar de sua casa que é o rio

E deslizando apenas, nem tocar a margem.



Te olhei. E há tanto tempo

Entendo que sou terra. Há tanto tempo

Espero

Que o teu corpo de água mais fraterno

Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta



Olha-me de novo. Com menos altivez.

E mais atento



Hilda Hilst

segunda-feira, setembro 8


Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.


Pablo Neruda

domingo, setembro 7


Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!…”


Florbela Espanca
Livro de Soror Saudade

Tu, que não crês, nem amas, nem esperas,
espírito de eterna negação,
teu hálito gelou-me o coração
e destroçou-me d'alma as primaveras.

Atravessando regiões austeras,
cheias de noite e cava escuridão,
como num sonho mau, só ouço um "não",
que eternamente ecoa entre as esferas.

Por que suspiras, por que te lamentas,
cobarde coração? Debalde intentas
opor à sorte a queixa do egoísmo.

Deixa aos tímidos, deixa aos sonhadores,
a esperança vã, seus vãos fulgores:
sabe tu encarar, sereno, o abismo!


ANTERO DE QUENTAL

O pensamento é triste; o amor insuficiente;
e eu quero sempre mais do que vem nos milagres.
Deixo que a terra me sustente:
guardo o resto para mais tarde.


Deus não fala comigo - e eu sei que me conhece.
A antigos ventos dei as lágrimas que tinha.
A estrela sobe, a estrela desce...
- espero a minha própria vinda.


(Navego pela memória
sem margens.


Alguém conta a minha história
e alguém mata os personagens.)




Cecília Meireles

sábado, setembro 6


É bem possível que só eu exista
Na redoma deste mundo
E o resto seja aparição já vista
Ou má pintura de cenário sem fundo



Assim se explicaria não ter eco

A parede sonora que inventei

Nem me reconhecer no rastro seco
Dos gestos e palavras que amei


Duvido
que me seja evidente o ser que sou
Porém pensar em ti é ter seguro
Outro Universo inteiro onde não estou


POEMA DE JOÃO MARTIM
http://joaodocarmo।no।sapo.pt/

Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

Mario Quintana

Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...



Mario Quintana - Baú de Espantos

sexta-feira, setembro 5


Brincando agora de esconder
se te escondesse no meu coração
não seria difícil encontrar-te.
mas se te escondesse
dentro de sua prória casca ,
então seria inútil procurar por ti.


kallil gilbran

quinta-feira, setembro 4


Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos, resta-nos um último recurso: não fazer mais nada. Por isso, digo, quando não obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que havíamos solicitado, melhor será desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram. Não fazer esforços inúteis, pois o amor nasce, ou não, espontaneamente, mas nunca por força de imposição. Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue;outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés. Os sentimentos são sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido. Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer. Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um só caminho...o de mais nada fazer.


Clarice Lispector

quarta-feira, setembro 3


Um sorriso nada custa, mas vale muito, muito.
Enriquece quem o ganha e quem o dá não fica pobre.
Dura apenas um instante, mas pode na lembrança durar eternamente. Ninguém é rico assim que o possa desprezar, nem é tão miserável que o possa recusar.
Traz ao lar felicidade; nos negócios é esteio e é a prova mais palpável de uma profunda amizade. Um sorriso dá repouso a quem se acha cansado e a quem está desanimado dá nova força e coragem; consola na tristeza, e em todas as nossas penas é o mais caseiro remédio.
Ninguém o compra, nem empresta, nem o rouba, pois só vale no instante em que o damos livremente.
E se um dia encontrardes quem vos negue o seu sorriso, dai-lhe generoso o vosso, pois ninguém precisa tanto de conforto de um sorriso, como aquele pobrezinho que fechado em si, sozinho não aprendeu a dá-lo.

terça-feira, setembro 2


Pinto flores na espera ...
E me alimento
dessa espera ...
Mentirei à própria vida,
e ainda serás meu amor ...
E se for preciso convoco
as estrelas e lhes peço socorro!
A vida é escassa
para o muito que busco ...
O amor é nada
para o muito que espero ...

Perguntarão pela tua alma
a alma que é ternura,
bondade,
tristeza,
amor.
Mas tu mostrarás a
alma do teu vôo.
Livre por entre os mundos..
E eles compreenderão
que a alma pesa.
Que é um segundo corpo,
e mais amargo,
porque não se pode mostrar,
porque não se pode ver...


Cecília Meireles

Ouço sons, sinto arrepios
parecem uivos de lobo
tremor no corpo todo
lembrança do cio

deslumbro na escuridão
não luto, não nego
vejo que o sentimento é bom
me ajeito, me entrego

sinto cheiro imortal
coisa sem definição
sinto-me em leveza total
só me sobra emoção

uma coisa percorre a mente
uma coisa desnuda a carne
não é só meu corpo que sente
não é só meu peito que arde

visão se deslumbra
corpo nu, coisa linda
nos olhos a menina se inunda
visão alvissareira, não finda

move em meneios
remexe balaios
coisas sem meios
início do ensaio

apalpo o desconhecido
já toquei e não sei o fim
procuro achar o sentido
algo cresce sem fim em mim

a junção se torna lenta
vou sem pressa, coisa obrigatória
mas a resposta da pele não agüenta
e começa a explosão sem memória

sinto gosto sem distinção
uma hora diz sim, outra hora diz não
só os nobres sabem divisar
onde esse sabor vai dar

movo os lábios entre saídas
percorro pêlos como avenidas
palmo a palmo escorrego
nem precisa pedir, enxergo

doce mistura eterna
união do côncavo e convexo
na cama, uma baderna
suave é a noite após o sexo

Caipira

Quem sou eu

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...sou uma mulher como todas do planeta, que merece amar e ser amada.

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