quinta-feira, setembro 11


Eu tinha umas asas brancas,

Asas que um anjo me deu,

Que, em me eu cansando da terra,

Batia-as, voava ao céu.

– Eram brancas, brancas, brancas,

Como as do anjo que mas deu:

Eu inocente como elas,

Por isso voava ao céu.



Veio a cobiça da terra.

Vinha para me tentar;

Por seus montes de tesouros

Minhas asas não quis dar.

– Veio a ambição, co'as grandezas,

Vinham para mas cortar

Davam-me poder e glória

Por nenhum preço as quis dar.



Porque as minhas asas brancas,

Asas que um anjo me deu,

Em me eu cansando da terra

Batia-as, voava ao céu.



Mas uma noite sem lua

Que eu contemplava as estrelas,

E já suspenso da terra,

Ia voar para elas,

– Deixei descair os olhos

Do céu alto e das estrelas...

Vi entre a névoa da terra,

Outra luz mais bela que elas.



E as minhas asas brancas,

Asas que um anjo me deu,

Para a terra me pesavam,

Já não se erguiam ao céu.



Cegou-me essa luz funesta

De enfeitiçados amores...

Fatal amor, negra hora

Foi aquela hora de dores!

– Tudo perdi nessa hora

Que provei nos seus amores

O doce fel do deleite,

O acre prazer das dores.



E as minhas asas brancas,

Asas que um anjo me deu

Pena a pena me caíram...

Nunca mais voei ao céu.




(Almeida Garrett)

quarta-feira, setembro 10


Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...



Florbela Espanca


Nada podeis contra o amor,
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco!



Eugénio de Andrade

terça-feira, setembro 9


Sonhei comigo
esta noite
Vi-me ao comprido
Deitada
Tinha estrelas
nos cabelos
em meus olhos
madrugadas

Sonhei comigo
esta noite
como queria
ser sonhada
Senti o calor da mão
percorrendo uma guitarra
De longe vinha um gemido
uma voz desabalada
Havia um campo
de trigo
um sol forte
me abrasava.

E acordei
meio sonhando
procurando
me encontrar
Quando me vi
ao espelho
era teu
o meu olhar.



Eugénia Tabosa

No ponto onde o silêncio e a solidão
Se cruzam com a noite e com o frio,
Esperei como quem espera em vão,
Tão nítido e preciso era o vazio.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Se te pareço noturna e imperfeita

Olha-me de novo. Porque esta noite

Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.

E era como se a água

Desejasse



Escapar de sua casa que é o rio

E deslizando apenas, nem tocar a margem.



Te olhei. E há tanto tempo

Entendo que sou terra. Há tanto tempo

Espero

Que o teu corpo de água mais fraterno

Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta



Olha-me de novo. Com menos altivez.

E mais atento



Hilda Hilst

segunda-feira, setembro 8


Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.


Pablo Neruda

domingo, setembro 7


Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!…”


Florbela Espanca
Livro de Soror Saudade

Tu, que não crês, nem amas, nem esperas,
espírito de eterna negação,
teu hálito gelou-me o coração
e destroçou-me d'alma as primaveras.

Atravessando regiões austeras,
cheias de noite e cava escuridão,
como num sonho mau, só ouço um "não",
que eternamente ecoa entre as esferas.

Por que suspiras, por que te lamentas,
cobarde coração? Debalde intentas
opor à sorte a queixa do egoísmo.

Deixa aos tímidos, deixa aos sonhadores,
a esperança vã, seus vãos fulgores:
sabe tu encarar, sereno, o abismo!


ANTERO DE QUENTAL

O pensamento é triste; o amor insuficiente;
e eu quero sempre mais do que vem nos milagres.
Deixo que a terra me sustente:
guardo o resto para mais tarde.


Deus não fala comigo - e eu sei que me conhece.
A antigos ventos dei as lágrimas que tinha.
A estrela sobe, a estrela desce...
- espero a minha própria vinda.


(Navego pela memória
sem margens.


Alguém conta a minha história
e alguém mata os personagens.)




Cecília Meireles

sábado, setembro 6


É bem possível que só eu exista
Na redoma deste mundo
E o resto seja aparição já vista
Ou má pintura de cenário sem fundo



Assim se explicaria não ter eco

A parede sonora que inventei

Nem me reconhecer no rastro seco
Dos gestos e palavras que amei


Duvido
que me seja evidente o ser que sou
Porém pensar em ti é ter seguro
Outro Universo inteiro onde não estou


POEMA DE JOÃO MARTIM
http://joaodocarmo।no।sapo.pt/

Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

Mario Quintana

Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...



Mario Quintana - Baú de Espantos

sexta-feira, setembro 5


Brincando agora de esconder
se te escondesse no meu coração
não seria difícil encontrar-te.
mas se te escondesse
dentro de sua prória casca ,
então seria inútil procurar por ti.


kallil gilbran

quinta-feira, setembro 4


Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos, resta-nos um último recurso: não fazer mais nada. Por isso, digo, quando não obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que havíamos solicitado, melhor será desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram. Não fazer esforços inúteis, pois o amor nasce, ou não, espontaneamente, mas nunca por força de imposição. Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue;outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés. Os sentimentos são sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido. Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer. Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um só caminho...o de mais nada fazer.


Clarice Lispector

Quem sou eu

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...sou uma mulher como todas do planeta, que merece amar e ser amada.

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