quinta-feira, outubro 2


"Quanto mais fecho os olhos melhor vejo;
o dia todo vi coisas vulgares;
mas quando durmo em sonho te revejo;
pondo no escuro luzes estrelares;
tu, cuja sombra faz brilhar as sombras;
pois tanto brilho no negror produzes?
Como podem meus olhos abençoados;
assim te ver brilhar em pleno dia;
quando na noite escura deslumbrados;
dentro de fundo sono eu já te via?
Meu dia é noite quando estás ausente;
e a noite eu vejo o sol se estás presente."


shakespeare

quarta-feira, outubro 1


"Hoje, não podeis ver nem ouvir, e é melhor assim.
Mas, um dia, o véu que cobre vossos olhos será retirado pelas mãos que
o teceram. E a argila que obstrui vossos ouvidos será rompida pelos
dedos que a amassaram. Então vereis, Então ouvireis,
E não deplorareis ter conhecido a cegueira e a surdez,
Pois, naquele dia, compreendereis a finalidade oculta de todas as
coisas,
E abençoareis as trevas, como abençoais a luz."


khalil gibran

"Alheias e nossas as palavras voam.
Bando de borboletas multicores,
as palavras voam
Bando azul de andorinhas,
bando de gaivotas brancas,
as palavras voam.
Viam as palavras como águias imensas.
Como escuros morcegos como negros abutres,
as palavras voam.

Oh! alto e baixo em círculos e retas acima de nós,
em redor de nós as
palavras voam.
E às vezes pousam."


(CECÍLIA MEIRELES)

"- você parece até que viu o passarinho azul”, disse ele. "- mais que vi, fui beijada por um", ela respondeu e lhe contou que nessa manhã, bem cedinho, enquanto caminhava em volta da velha Praça, ao passar embaixo de uma frondosa árvore, um passarinho, em hiperbólico vôo, tocou na sua cabeça, deu um grito que ela entendeu como "bem vinda!" e voltou pra um dos galhos da árvore. “- parecia um bentevi, mas acho acho que era um beija-flor, já que me deu um beijo" disse ela - com o olhar vagando em alguma longínqua árvore cheia de flores e frutos e ninhos de beija-flores -, enquanto ele a olhava como que hipnotizado pelo vôo daquele olhar, balbuciou "- você é uma fruta...", ao que ela completou em bom e alto tom: "prá lá de madura! e que docemente não espera mais do que isso: alimentar beija-flores, sabiás, bentivís, e todos as asas da alma...". "- também sou um pássaro", ele falou, abrindo os braços num gesto que imitava o abrir de asas... Ela sorriu, aconchegando-se nas "asas" dele. E, assim, abraçadinhos e impulsionados pelo bater uníssono de seus corações, voaram tão alto que adentraram nos espaços sagrados dos deuses... Depois, exaustos adormeceram na órbita da Estrela do Oriente. Acordaram - sem metáforas, hiperboles ou onamatopéia - com o sol lambendo suas peles, deste outro lado da Terra.

Pequenas fugas do cotidiano - Lia de Oliveira

terça-feira, setembro 30


Se te pareço ausente,não creias :
hora a hora minha dor agarra-se
aos teus abraços,
hora a hora meu desejo revolve teus escombros,
e escorrem dos meus olhos mais promessas.
Não acredites nesse breve sono ;
não dês valor maior ao meu silêncio;
e se leres recados numa folha branca,
não creias também : é preciso encostar teus lábios nos meus lábios para ouvir .

Nem acredites se pensas que te falo :
palavras
são meu jeito mais secreto de calar.

lya luft

Se todas as tuas noites fossem minhas
Eu te daria, a cada dia
Uma pequena caixa de palavras
Coisa que me foi dada, sigilosa

E com a dádiva nas mãos tu poderias
Compor incendiado a tua canção
E fazer de mim mesma, melodia.

Se todos os teus dias fossem meus
Eu te daria, a cada noite
O meu tempo lunar, transfigurado e rubro
E agudo se faria o gozo teu.

HILDA HILST
In: "Júbilo, memória, noviciado da paixão"

segunda-feira, setembro 29


ninguém me encanta
como você
nem me vê
do jeito
que só você,
de que adianta
ter olhos
e não saber ver
ter voz
mas não ter o que dizer
digam o que disserem
façam o que quiserem
ninguém diz
ninguém vê
ninguém faz
como você
ninguém me canta
ninguém me encanta
como você.

Itamar Assumpção e Alice Ruiz

"Depois que um corpo
comporta outro corpo
Nenhum coração
Suporta o pouco"


alice ruiz

Vi uma estrela tão alta
vi uma estrela tão fria
vi uma estrela luzindo
na minha vida vazia!

Era uma estrela tão alta
era uma estrela tão fria
era uma estrela sozinha
luzindo no fim do dia!

Por que da sua distância
para minha companhia
não baixava aquela estrela?
por que tão alta luzia?

E ouvia-a na sombra funda
responder que assim fazia
para dar uma esperança
mais triste ao fim do meu dia.


Manuel Bandeira

A Eternidade está longe
(Menos longe que o estirão
Que existe entre o meu desejo
E a palma da minha mão).

Um dia serei feliz?
Sim, mas não há de ser já:
A Eternidade está longe,
Brinca de tempo-será.


(Manuel Bandeira)

Dizes que sou feliz. Não mentes. Dizes
Tudo que sentes. A infelicidade
Parece às vezes com a felicidade
E os infelizes mostram ser felizes!

Assim, em Tebas - a tumbal cidade,
A múmia de um herói do tempo de Ísis,
Ostenta ainda as mesmas cicatrizes
Que eternizaram sua heroicidade!

Quem vê o herói, inda com o braço altivo,
Diz que ele não morreu, diz que ele é vivo,
E, persuadido fica do que diz...

Bem como tu, que nessa crença infinda
Feliz me viste no Passado, e ainda
Te persuades de que sou feliz!


augusto dos anjos

domingo, setembro 28


Busca-me na tarde fria
Rompe a barreira de roupas
O coração arrebenta
As mãos transpiram e gemem
Esquenta minha nuca
Com seu sonho
Vaga sua língua em minha pele
Derrama sob minhas pálpebras teu... carinho...
...vagueia seus braços em meus caminhos

Tu és pra mim o calor
Onde me abandono
Onde guardo o veneno
Busca-me
Rodeia-me

Agarra meus cabelos em seus dedos
Procura a bússola
Me direciona
(eu deixo... anseio)
E balbucio seu nome e qual sonâmbula
Tateio
E sôfregos sentimos o som do gelo
Que cai... (lá fora)
E fica parado no tempo
(Jogo a chave do lamento)
E meus olhos fixam-se em um beijo
E na cor da face (veja) meu desejo


Sole Mazzeto

A estrela que caiu
Na palma
Da minha mão
Reluziu,
Sutilmente
Contou-me
Que além
Dos nossos
Sonhos
Há um lugar,
Há mar,
Existe um barco
Tocado à velas
A navegar
Ondas bravias
E tempestades
Que vão passar
Quando meu calor
Encontrar o seu
Que é fogo
A me incendiar,
Há mais,
Um cais
E o nosso amor
A atracar.



Maria Pontes

sábado, setembro 27


Há sem duvida quem ame o infinito,
Há sem duvida quem deseje o impossivel,
Há sem duvida quem nao queria nada -

Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possivel,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se nao puder ser…”

-- Álvaro de Campos

Quem sou eu

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...sou uma mulher como todas do planeta, que merece amar e ser amada.

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