domingo, outubro 11


"Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens…
não queiras ser o de amnhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabes que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade.
És tu."



CECÍLIA MEIRELES

sábado, outubro 10


Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.
No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.
Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.
Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.
Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.



Eugenio de Andrade

sexta-feira, outubro 9


” Ninguém pode construir em teu lugar
as pontes que precisarás passar para
atravessar o rio da vida.
Ninguém exceto tu, só tu.
Existem, por certo, atalhos sem números
e pontes, e semi-deuses que se oferecerão
para levar-te além do rio, mas isso te
custaria a tua própria pessoa.
Tu te hipotecarias e te perderias.
Existe no mundo um único caminho por onde
só tu podes passar.
Onde leva? Não perguntes, segue-o.”





Nietzsche

quinta-feira, outubro 8


"Descrever a felicidade é diminuí-la"




Henri-Marie Beyle

Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão.
A forca dos meus sonhos é tão forte
Que tudo renasce a exaltação,
E nunca as minhas mãos estão vazias.





Sophia de Mello Breyner

quarta-feira, outubro 7


“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim como em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.”



Fernando Pessoa

terça-feira, outubro 6


Se eu fosse um padre,
eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
muito menos no Anjo Rebelado

e os encantos das suas seduções,
não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições…

Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,
Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma

…e um belo poema

ainda que de Deus se aparte

um belo poema sempre leva a Deus!




Mário Quintana

segunda-feira, outubro 5


Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma…Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.
Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas…
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.


E em duas bocas uma língua…, – unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.


Depois… – abre os teus olhos...
Enterra-os bem nos meus; não digas nada…
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!




José Régio

domingo, outubro 4


De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure



Vinícius de Moraes

sábado, outubro 3


"Como um pαssαro cαntαndo nα chuvα,
deixe memóriαs αgrαdáveis sobreviverem em tempos de tristezα "


Robert Louis Stevenson

Quando estás vestidas,


Ninguém imagina


Os mundos que escondes


Sob as tuas roupas.




Assim, quando é dia,


Não temos noção


Dos astros que luzem


No profundo céu.




Mas a noite é nua,


E, nua na noite,


Palpitam teus mundos


E os mundos da noite.





Manuel Bandeira

quarta-feira, setembro 30


Venha me beijar
Meu doce vampiro
Na luz do luar
Venha sugar o calor
De dentro do meu sangue...vermelho!
Tão vivo tão eterno...veneno!
Que mata sua sede
Que me bebe quente
Como um licor
Brindando a morte e fazendo amor...

Meu doce vampiro
Na luz do luar
Me acostumei com você
Sempre reclamando, da vida
Me ferindo, me curando..a ferida
Mas nada disso importa
Vou abrir a porta
Prá você entrar
Beija minha boca
Até me matar...de amor...

segunda-feira, setembro 28


Porque por maior que seja a noite,
o dia torna a clarear.

"...O que torna uma pessoa especial é sua capacidade de viver intensamente por uma causa. São raras nos dias de hoje. Vive-se muito pela metade ultimamente. Pessoas que se empenham na realização de seus sonhos não se conformam com a uniformidade. Assumem o preço de serem diferentes e, geralmente, nadam contra a corrente. Isso requer coragem.
Coragem de ser, não simplesmente de fazer. Ser é mais difícil do que fazer, afinal, é no ser que o fazer encontra o seu sustento. Faço a partir do que sou. Não, o contrário. (...)
(...)No silêncio do coração, há um lugar que não sabe fazer nada. É lá que nos descobrimos em nosso primeiro significado. É ele também o nosso lado mais sedutor. É ele que faz com que as pessoas se apaixonem por nós. É justamente por isso que ele tem que ser bem descoberto, de maneira que, quando façamos o que quer que seja, tudo o que fizermos tenha as marcas do que somos. É simples. Realizo tudo a partir de minha particularidade. Sou único, ainda que imitado por muitos. (...)
(...)Sou muito mais do que posso dizer sobre mim mesmo. Você também. Por isso não gostaria que nossa conversa terminasse com uma pergunta pragmática, dessas que se escutam em todas as esquinas que costumamos freqüentar.
Opto por uma pergunta que não espera por resposta imediata, tão pouco pelo desconcerto da fala. Só lhe peço que honestamente debruce-se sobre ela: Quem é você?"



Padre Fábio de Melo

Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:
— "Quem me dera que eu fosse aquela loura estrela,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!
"Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

— "Pudesse eu copiar-te o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte armada e bela..."
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

— "Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda luz resume!"
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

— "Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vagalume?"



Machado de Assis

Quem sou eu

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...sou uma mulher como todas do planeta, que merece amar e ser amada.

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