quarta-feira, junho 4


Samba em prelúdio
(Baden Powell e Vinícius de Moraes)

Eu sem você não tenho porquê
Porque sem você não sei nem chorar
Sou chama sem luz, jardim sem luar
Luar sem amor, amor sem se dar

Em sem você sou só desamor
Um barco sem mar, um campo sem flor
Tristeza que vai, tristeza que vem
Sem você, meu amor, eu não sou ninguém

Ah, que saudade
Que vontade de ver renascer nossa vida
Volta, querida
Os meus braços precisam dos teus
Teus braços precisam dos meus

Estou tão sozinho
Tenho os olhos cansados de olhar para o além
Vem ver a vida
Sem você, meu amor, eu não sou ninguém
Sem você, meu amor, eu não sou ninguém

"Quem é sábio, aprende muito com os seus inimigos"

Aristófanes


Ninguém vencerá a guerra dos sexos.
Há muita confraternização com o inimigo...

recordações...


No mundo sempre existirão pessoas que vão me amar pelo que sou,
outras que vão me odiar pelo que sou e outras, ainda,
que oras vão me amar oras vão me odiar pelo que sou.
Sabendo disso, vivo livre.

Claudia Giovanni

Amor e desejo são coisas diferentes.
Nem tudo o que se ama se deseja e nem tudo o que se deseja se ama.

Miguel Cervantes

Há amor amigo♥Amor rebelde♥Amor antigo♥Amor de pele♥Há amor tão longe♥Amor distante♥Amor de olhos♥Amor de amante♥Há amor de inverno♥Amor de verão♥Amor que rouba♥Como um ladrão♥Há amor passageiro♥Amor não amado♥Amor que aparece♥Amor descartado♥Há amor despido♥Amor ausente♥Amor de corpo♥E sangue bem quente♥Há amor adulto♥Amor pensado♥Amor sem insulto♥Mas nunca tocado♥Há amor secreto♥De cheiro intenso♥Amor tão próximo♥Amor de incenso♥Há amor que mata♥Amor que mente♥Amor que nada mas nada♥Te faz contente me faz contente♥Há amor tão fraco♥Amor não assumido♥Amor de quarto♥Que faz sentido♥Há amor eterno♥Sem nunca talvez♥Amor tão certo♥Que acaba de vez


Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de
verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar
sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática.
Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.
Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é
mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e
das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de
antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor
passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios.
Reunem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa
variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser
desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O
resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam
"praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do
amor doente, do único amor verdadeiro que há¡ estou farto de conversas,
farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi
namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.
Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia,
são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá¡ tudo bem,
tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, banalidades,
borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já
ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o
desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a
comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não
é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a
pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso
"dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e
descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se
vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a
loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É
essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é
para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode.
Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para
nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de
inferno aberto.

O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A
"vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um
fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem
tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não
dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa
alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe,
não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que
a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e
minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade
pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num
momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por
muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração
guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida,
quando não esta lá¡ quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso
amor, o amor que se lhe tem.

Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se
ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver
sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode
ceder. Não se pode resistir.

A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não.
Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.


ELOGIO AO AMOR - Miguel Esteves Cardoso in Expresso

terça-feira, junho 3


A gente tem que morrer tantas vezes durante a vida
Que eu já tô ficando craque em ressurreição.
Bobeou eu tô morrendo
Na minha extrema pulsão
Na minha extrema-unção
Na minha extrema menção
de acordar viva todo dia
Há dores que sinceramente eu não resolvo
sinceramente sucumbo
Há nós que não dissolvo
e me torno moribundo de doer daquele corte
do haver sangramento e forte
que vem no mesmo malote das coisas queridas
Vem dentro dos amores
dentro das perdas de coisas antes possuídas
dentro das alegrias havidas

Há porradas que não tem saída
há um monte de "não era isso que eu queria"
Outro dia, acabei de morrer
depois de uma crise sobre o existencialismo
3º mundo, ideologia e inflação...
E quando penso que não
me vejo ressurgida no banheiro
feito punheteiro de chuveiro
Sem cor, sem fala
nem informática nem cabala
eu era uma espécie de Lázara
poeta ressuscitada
passaporte sem mala
com destino de nada!

A gente tem que morrer tantas vezes durante a vida
ensaiar mil vezes a séria despedida
a morte real do gastamento do corpo
a coisa mal resolvida
daquela morte florida
cheia de pêsames nos ombros dos parentes chorosos
cheio do sorriso culpado dos inimigos invejosos
que já to ficando especialista em renascimento

Hoje, praticamente, eu morro quando quero:
às vezes só porque não foi um bom desfecho
ou porque eu não concordo
Ou uma bela puxada no tapete
ou porque eu mesma me enrolo
Não dá outra: tiro o chinelo...
E dou uma morrida!
Não atendo telefone, campainha...
Fico aí camisolenta em estado de éter
nem zangada, nem histérica, nem puta da vida!
Tô nocauteada, tô morrida!

Morte cotidiana é boa porque além de ser uma pausa
não tem aquela ansiedade para entrar em cena
É uma espécie de venda
uma espécie de encomenda que a gente faz
pra ter depois ter um produto com maior resistência
onde a gente se recolhe (e quem não assume nega)
e fica feito a justiça: cega
Depois acorda bela
corta os cabelos
muda a maquiagem
reinventa modelos
reencontra os amigos que fazem a velha e merecida
pergunta ao teu eu: "Onde cê tava? Tava sumida, morreu?"
E a gente com aquela cara de fantasma moderno,
de expersona falida:
- Não, tava só deprimida.

(Elisa Lucinda)

PER AMORE...


Per Amore

(Tradução)

Io conosco la tua strada,
Eu conheço tua estrada

ogni passo che farai,
cada passo que darás

le tue ansie chiuse e i vuoti,
teus desejos calados, teus vazios

sassi che allontanerai
pedras que afastarás

senza mai pensare che
sem jamais pensar que eu

come roccia io ritorno in te...
como uma rocha retorno sempre para você

Io conosco i tuoi respiri,
eu conheço a tua respiração

tutto quello che non vuoi,
tudo o que você não quer

Io sai bene che non vivi
Você sabe que não está vivendo

riconoscerlo non puoi.
não pode reconhecer

E sarebbe come se
e como se

questo cielo in fiamme
este céu em chamas

ricadesse in me,
desabasse sobre mim

come scena su en attore...
como um cenário sobre um ator

Per amore,
Por amor

hai mai fatto niente
você já fez alguma coisa

solo per amore,
apenas por amor?

hai sfidato il vento e urlato mai,
já desafiou o vento e gritou?

diviso il cuore stesso,
já dividiu o próprio coração?

pagato e riscommesso,
já pagou e apostou várias vezes?

dietro questa mania
nessa mania

che resta solo mia?
que afinal segue sendo só minha

Per amore,
Por amor

hai mai corso senza flato
você já correu até ficar sem folego?

per amore,
por amor

perso e ricominciato?
ja se perdeu e se reencontrou?


E devi dirlo adesso
e deve me dizer agora

quanto di te ci hai messo,
quanto de você colocou nessa história?

quanto hai creduto tu
quanto você acreditou

in questa bugia.
nesta mentira


E sarebbe come se questo fiume in piena
e como se um rio como uma enchente

risalisse a me,
transbordasse em mim


come china al suo pittore.
como o nanquin da pena de um pintor

Per amore,
por amor

hai mai speso tutto quanto, la ragione,
você já esgotou sua razão?

il tuo orgoglio fino al pianto?
teu orgulho até o pranto?

Lo sai stasera resto,
você sabe, esta noite eu fico

non ho nessun pretesto,
mesmo sem nehum pretexto

soltanto une mania
apenas essa mania

che resta forte e mia
que ainda é forte e minha

dentro quest'anima che strappi via.
dentro desta alma que você dilacera

E te lo dico adesso,
e te digo agora

sincero con me stesso,
com sinceridade

quanto mi costa non saperti mia.
quanto me custa não saber-te minha

E sarebbe come se
é como se

tutto questo mare
este mar todo

annegasse in me.
se afogasse em mim

Cálice

- Chico Buarque & Gilberto Gil

Pai, afasta de mim esse cálice, Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice de vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga, tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca resta o peito, silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa, melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta, tanta mentira, tanta força bruta

Como é difícil acordar calado, se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa, atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada, prá qualquer momento, ver emergir o monstro da lagoa

De muito gorda a porca já não anda, de muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta, essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo, de que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca dos bêbados do centro da cidade

Talvez o mundo não seja pequeno, nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado, quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça, minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel, me embriagar até que alguém me esqueça

Até quando?

(Salmo 13)

Até quando? - é a pergunta que se faz em meio à provação, ou durante algum agudo sofrimento, ou enquanto perdura a dor quase insuportável, na esperança de que logo o período da crise chegue ao fim.
Até quando? - é a pergunta feita pelo vigia, ao longo da noite, enquanto espera o amanhecer.
Até quando? - é a pergunta daquele que é perseguido e anseia por seu livramento.
Até quando? - é a pergunta das vítimas da guerra, aguardando por momentos de paz.
Não é uma indagação desesperada. É uma pergunta confiante: "Eu, porém, confio em teu amor; o meu coração exulta em tua salvação".
Pergunta de quem sabe que a mão do Senhor vai agir. Só não sabe quando.
E espera, revigorado em sua confiança.

(Autor: Carlos Novaes)

Hoje me dei conta de que as pessoas vivem a esperar por algo ...
E quando surge uma oportunidade,
Se dizem confusas e despreparadas ...
Sentem que não merecem
Que o tempo certo ainda não chegou.
E a vida passa ...
E os momentos se acumulam como papéis sobre uma mesa.
Estamos nos preparando para qualquer coisa mas,
Ainda não aprendemos a viver.
A arriscar por aquilo que queremos.
A sentir aquilo que sonhamos.
E assim adiamos nossas vidas por tempo indeterminado ...
Até que a vida se encarregue de decidir por nós mesmos
E percebemos o quanto perdemos e o tanto que poderíamos ter evitado.
Como somos tolos em nossos pensamentos limitados !
Em nossas emoções contidas !
Em nossas ações determinadas !
O ser humano se prende em si mesmo por medo e desconfiança.
Vive como coisa num mundo de coisas.
O tempo esperado é o agora.
Sua consciência lhe direciona,
Seus sentidos lhe alertam
E suas emoções não mais são desprezadas.
Antes que tudo acabe é preciso fazer iniciar ...
Mesmo com dor e sofrimento

O amor é a sabedoria dos loucos e a loucura dos sãos.

Samuel Johnson

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...sou uma mulher como todas do planeta, que merece amar e ser amada.

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