domingo, setembro 21
auto retrato...

No retrato que me faço - traço a traço - às vezes me pinto nuvem, às vezes me pinto árvore... às vezes me pinto coisas de que nem há mais lembrança... ou coisas que não existem mas que um dia existirão... e, desta lida, em que busco - pouco a pouco - minha eterna semelhança, no final, que restará? Um desenho de criança... Corrigido por um louco!
[Mario Quintana]
sábado, setembro 20

Fugaz
passagem por uma paisagem,
lugar do onde, do ontem, do quando,
quantas palavras ficaram faltando
na boca cheia de imagens.
o outro é aquele que ficou à margem,
no espanto de um pronome,
no corpo de uma brisa suave;
o outro é como uma fome
pluma à deriva, à distância, ou quase.
estranho em sua própria viagem,
garrafa com uma mensagem,
olhar durando numa flor,
sem nome, secreta, selvagem.
Desterro, água bebida num trem,
peça incompleta, festa adiada, vertigem,
a cabeça sempre em alguém,
eu outro, eu todos, ninguém.
(Rodrigo Garcia Lopes)

Há de ficar olhando o mar
e observar a vida,
sentir o vento
batendo e fazendo
a água gritar.
Há de estar sereno
e ser a própria
tranquilidade ...
que, intranquila,
atravessa a madrugada.
Há de pisar na terra molhada,
rodopiar,
mesmo em silêncio,
caminhar sem rumo.
Há de beber das cachoeiras
o vinho da magia intensa
que é perder-se no ar ...
que merece a imensidão
do espaço.
carla dias
sexta-feira, setembro 19

De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça. Amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera
Ou se vacila ao mínimo temor.
Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
È astro que norteia a vela errante
Cujo valor se ignora, lá na altura.
Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfanje não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma, para a eternidade.
Se isto é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.
SHAKESPEARE
quinta-feira, setembro 18

Penso: agora serei feliz
pois ao meu lado está o Amor.
Sob a terra escondo a raiz,
árvore a rebentar em flor.
Feliz como o campo de trigo
que após a chuva se aqueceu.
Enfim o Amor está comigo,
de coração unido ao meu!
Contudo, agonias estranhas,
estranhas amarguras trago-as
caladamente nas entranhas,
como um lago de fundas águas.
Tua presença – arco triunfal -
cobre-me a vida de esplendor.
E eu sei que não há dor nem mal
que atinja a presença do Amor.
Porém se teus olhos profundos
seguem como barcos à vela
o roteiro de novos mundos,
que distância se me revela!
Se despiedoso ou distraído
quebra de nossos dedos o elo,
- pássaro que tomba ferido,
nas minhas mãos morre este anelo.
Se teu carinho promissor
pela manhã se me anuncia,
pressentindo de sol-pôr
enubla o cristal de alegria.
Teu silêncio é trama de espinhos
em que se laceram meus véus.
Tua voz – espuma de vinhos
que te embriagaram noutros céus.
Nesta paixão que nos separa
quanto mais no que une a aparência,
sofro – minha volúpia rara! -
toda a nostalgia da ausência.
Amor – espada de dois gumes,
cada qual mais frio e mais forte:
se a vida está no que resumes,
és o caminho para a morte.
Henriqueta Lisboa – do livro: Prisioneira da Noite (1935 – 1939)
Há dentro de mim uma paisagem
entre meio-dia e duas horas da tarde.
Aves pernaltas, os bicos
mergulhados na água,
entram e não neste lugar de memória,
uma lagoa rasa com caniço na margem.
Habito nele, quando os desejos do corpo,
a metafísica, exclamam:
como és bonito!
Quero escrever-te até encontrar
onde segregas tanto sentimento.
Pensas em mim, teu meio-riso secreto
atravessa mar e montanha,
me sobressalta em arrepios,
o amor sobre o natural.
O corpo é leve como a alma,
os minerais voam como borboletas.
Tudo deste lugar
entre meio-dia e duas horas da tarde
adélia prado
terça-feira, setembro 16

Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.
F.P.

Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossíveis de contar.
O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar.
Quando é que passará este drama sem teatro,
Ou este teatro sem drama,
E recolherei a casa?
Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos de vida, que tens lá no fundo?
É esse! É esse!
Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;
E então será dia.
Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma, será dia!
Álvaro de Campos, 7-11-1933
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